Foto: Márcia do Carmo

 

Contei as horas no relógio, quando os ponteiros marcaram 0h, quinta-feira (11), um filme passou em minha mente, abraçada a ela (pois estávamos conversando, sentadas no sofá da sala), lágrimas de emoção saltaram de nossos olhos e vi, em fração de segundos, frames de uma história que dura 16 anos.

 

Foi no dia 11 de outubro, às 10h da manhã, que veio ao mundo a minha pequena (bem pequena) Alice, pesando apenas 1quilo e 800 gramas, medindo 38cm, ela conheceu esse mundo louco, mas naquele momento, não imaginávamos o que Deus tinha preparado para nossas vidas. Tive um parto complicado, Alice veio ao mundo por meio de cesariana, eu, muito jovem, não entendia muito bem o que estava ocorrendo e esperei pelo momento tão mágico para toda mulher, o choro do bebê, mas não tive, aos prantos e perguntando pela minha pequena, que estava sendo retirada de meu ventre, muito antes do que devia, pois eu ainda estava com 33 semanas de gestação, uma enfermeira com sorriso calmo e carinhoso, afagou meus cabelos e disse: “calma, mãezinha, sua bebê precisa de atendimento, pois é muito prematura, mas ela é linda, viu?!”.

 

Devido a cirurgia, só pude ver minha pequena, 24horas após o seu nascimento, com ajuda da minha mãe, fomos até o berçário, foi quando a vi, tão frágil, tão pequena, cheia de tubos e soros, então roguei: “Senhor, cuida da minha filha, não a leve de mim! ”

 

Os dias foram passando e Alice não tinha um quadro estável, tinha problemas para respirar e também apresentava infecção neonatal, rejeitava a mínima quantidade de leite ingerida via sonda gástrica. Quanta luta, a cada dia era uma vitória. Deus enviou muitos anjos para acompanhar esse início de história, pessoas que me deram força, que oraram pela vida da nossa pequena Alice. Fomos informados que Alice iria precisar ficar internada até completar a idade gestacional de 9 meses, ou seja, seriam 2 meses de internação, não deixávamos nossa pequena.

 

Deus é poderoso e misericordioso e um milagre aconteceu, em 17 dias, Alice fortaleceu os pulmões, seu organismo já aceitava o leite e de 0,5 ml enviado para sua barriguinha por meio de uma sonda, ela já estava tomando um copinho de café cheio de leite materno, lembro quando ouvi seu choro pela primeira vez, meu Deus, quanta alegria, era baixinho, mas cheio de vida. Após esse período, recebemos a melhor notícia, “Alice pode ir para casa, está de alta”, disse a pediatra, quase não acreditamos. Foram apenas 17 dias de internação, nossa guerreira começou a mostrar que seria grande.

 

Mas as batalhas estavam apenas começando, mesmo não sendo fácil cuidar de um bebê prematuro, ter Alice em casa era um sonho, nossa família encheu-se de muito amor, só não imaginávamos que ainda teria muitas lutas pela frente. Quando Alice completou 4 meses de vida, veio a maior das batalhas, diagnóstico de retinopatia da prematuridade, minha filha estava cega!

 

“Como?” Eu pensava, Alice tinha lindos olhos azuis, um tom de azul que lembrava a cor do céu em dias de verão, mas mudaram para tons de inverno e ficaram cinzas e sem brilho.  Corremos, buscamos meios, mas Deus tinha outros planos e recebemos o laudo final no dia 04 de dezembro de 2002, “Cegueira total por retinopatia da prematuridade”.

 

Desespero, foi o que senti naquele momento, olhava para o pedaço de papel e olhava para ela, dormindo em meu colo, estávamos em Recife, capital de Pernambuco. Voltamos e eu carregava na mala muitas dúvidas e medos. Mas novamente, Deus mostra sua força e jamais deixa seus filhos sozinhos, uma tia minha, andando pela rua, recebeu um folder, que trazia informações sobre o CAP (Centro de apoio pedagógico ao deficiente visual), ela levou para mim e foi aí que tudo começou, conheci pessoas maravilhosas, elas nos instruíram e mostraram que ser cega, não fazia da minha filha, uma incapaz.

 

Hoje Alice completa 16 anos, tem muitas histórias que caberiam em um livro, nunca houve obstáculos para ela, nunca sentiu-se menosprezada por ser cega, durante o ensino fundamental, cantou no coral da escola estadual José de Anchieta, projeto lindo desenvolvido pelo corpo docente, teve iniciação de aulas de violão, aprendeu à tocar flauta doce, quando pequena, fez balé, depois praticou capoeira (uma de suas paixões) e não para por aí, Alice é paratleta, medalhista paraolímpica escolar estadual e nacional, medalha de ouro estadual evmedalha de prata representando o Amapá em SP, em 2017. Como não se encher de orgulho? Como não corujar minha filha? Como não babar à cada feito? Babo mesmo, corujo mesmo, sabem por quê? Porque ela é um exemplo de vida para mim, é exemplo de força e fé e através dela, vejo que podemos tudo, basta querer.

Jornalista, assessora de comunicação, apaixonada pela vida e mãe.